Pioneira do rock nacional, Rita Lee, sexagenária, anunciou que não fará mais shows. O de sábado passado, em Aracaju (SE), teria sido o último. Fã da cantora, desde criança, tive um pretexto para tratar do diálogo com a cultura e a arte.
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Ao pensar em escrever sobre Rita Lee, logo me autocensurei. Afinal, que atrevimento esse de prestigiar a rainha do rock num Blog hospedado num site de igreja evangélica? Logo a cantora irreverente que se envolveu com drogas, ícone de uma geração liberal e desafiadora (no último show, xingou policiais e teve que ser detida). Ela mesma, que viveu o desbunde, o deboche e outros excessos da época. Ora, mas se um dos propósitos deste espaço é justamente dialogar com nosso contexto, como escapar do desafio?
Não vou falar da artista como o faria um crítico musical. Nem recorrer a sites para detalhar sua vida e carreira, ou discorrer sobre sua contribuição ao rock nacional e à própria MPB. Nada disso. Escrevo como fã.
Eu tinha 8, quase 9 anos, quando a vi num programa de TV. Fiquei encantado com Ovelha Negra, letra, melodia e mesmo com a figura de Rita. Passei a segui-la. Maneira de falar. Não comprava revista ou jornal por causa dela, muito menos seus LPs (os CDs de outrora) ou K-7, nem ia a shows (fui vê-la, uma única vez, já aqui em Brasília, pai de família, em 1998, no Nilson Nelson, bacana por sinal). Considerava-me sortudo quando conseguia ouvi-la no rádio ou vê-la na TV. Restava-me conversar com colegas sobre as últimas da artista. E era só.
Apreciava seu jeito sapeca, irreverente, as baladas gostosas, bem transadas (“Jardins da Babilônia”,”Mutante”, “Banho de espuma”, “Saúde”), o uso simples, irônico e divertido que fazia de rimas (“Minha saúde não é de ferro não, mas meus nervos são de aço, pra pedir silêncio eu berro, pra fazer barulho, eu mesma faço”…), trocadilhos (“Se a Deborah Kerr que o Gregory Peck…)” e a sonoridade das palavras (“Desde o Oiapoque até Nova Iorque se sabe que o mundo é dos que sonham que toda lenda é pura verdade”), e pelo emprego formidável de expressões do espanhol (“el cuerpo caliente”), italiano (“dolce far niente”), francês (“Un rendez-vous chez nous”) e inglês (“on the rocks”) – numa colagem sempre muito criativa.
Quando ouvia – no meu (quase)gueto evangélico – admoestações sobre influência do mundo, de mensagens subliminares perniciosas, isso não me levava a rejeitar minha afinação com a cantora. Esse entendimento estava claro pra mim. Afinal, não a apreciava por sua ideologia, filosofia de vida ou apologia de qualquer daquelas ideias muito em voga nos idos de 1960 e 70. No fim das contas, é questão de gosto. Pobre, dirão alguns. Que seja…
Hoje, num rápido exercício de autoanálise, chego à conclusão que minha curtição de Ritinha Lee ajudou-me na autoafirmação. O garoto certinho, cumpridor de deveres, quase um “nerd” na escola e militante a toda prova na Igreja e fora dela, enfim, curtia algo fora de um script, digamos, mais ortodoxo ou previsível. Ela me ajudou. Não obstante ideias e opções das quais discordava antes como agora, isso não me impede de nutrir uma simpatia pela artista a quem Caetano Veloso se referiu como a mais completa tradução da cidade de São Paulo.
Resumo da ópera, ou melhor do rock: podemos distinguir entre a arte e a estética, tão necessárias, e enfoques outros, acessórios dispensáveis. Quando apreciamos artistas e sua arte temos a chance maravilhosa de dialogarmos, de testarmos nossos sentimentos e convicções, aferindo se estamos certos quanto ao rumo e ao ritmo em que seguimos na vida.