Na semana que ora se encerra, a presidente Dilma Roussef completou cinco períodos de cem dias na Presidência da República. Estranha no ninho da política, a comandante tem surpreendido pela capacidade de se impor à própria legenda e a um consórcio de partidos ávidos por mais espaço no poder. Suas ações têm resultado em boa impressão dela e do governo junto à opinião pública.
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Pode não parecer, mas é bastante tempo. Sob o presidencialismo, João Goulart não chegou a tanto. Ficou pouco menos de 450 dias, derrubado que foi pelo golpe militar. Mas aí está a primeira presidente do Brasil aproximando-se da metade do mandato com altos índices de popularidade. No horizonte a médio prazo, as eleições municipais – o primeiro teste nas urnas do governo; as dificuldades com a crise econômica e os desgastes provocados pelo apetite da base aliada.
Abaixo, traço breve e despretensioso resumo:
Na economia, juros em queda, inflação controlada, mas crescimento tímido (considerando os contextos dos BRICS e latino-americano). Estamos no 6º. lugar das maiores economias do mundo (à frente do Reino Unido, sem que se possa garantir até quando o feito será mantido). O nível de emprego caiu no primeiro trimestre. Embora ainda não assuste, nesse quesito o país está atrás de Índia, Argentina, Peru e Turquia.
Na política, o governo tem colhido reveses e sobretudo vitórias. Mudou os líderes da base no Congresso, mas o desgaste foi contido e não chegou a haver um desastre na esteira das mudanças. A reforma do Código Florestal mostrou a força da dissidência de ocasião, capitaneada pela banca ruralista. Por sua vez, boa parte da sociedade pressiona para que a presidente vete as mudanças feitas pelos deputados que desfizeram o arranjo conseguido no Senado. PT e PMDB prosseguem luta renhida nos bastidores para fazer as prefeituras das capitais e cidades mais importante, disputando a cabeça de chapa com os demais partidos da base. A temporada de mudança nos ministérios foi encerrada imprimindo um caráter mais técnico e menos politiqueiro à gestão.
No âmbito das relações exteriores, a ausência de carisma da presidente é compensada pela abertura mundial ao estilo feminino de governar e pelo prestígio do Brasil que não declina em razão mesmo da conjuntura mundial ainda bastante favorável aos emergentes.
No geral, Dilma permanece comedida nas aparições públicas, nos discursos, no contato com a imprensa. Já com auxiliares ou políticos que frequentam a Corte, tem se mostrado bastante dura, ríspida, muitas vezes. A falta de cortesia gerou problema com o governador do Ceará. Este a enfrentou mostrando que é detentor, assim como ela, de autoridade conferida pelas urnas. Outra situação constrangedora – desta feita em Cartagena, na Colômbia, durante a Cúpula das Américas – gerou um incidente diplomático com a embaixadora colombiana no Brasil. Ela foi destratada pela presidente que pensava tratar-se de uma funcionária da diplomacia brasileira.
Encerro o texto destacando um tema espinhoso. Se bravata e autopromoção são típicos do político profissional, a presidente demonstra mais uma vez que não integra o time. Sem alarde, nem promessas vãs, Dilma Roussef finalmente deu posse à Comissão da Verdade numa solenidade com a presença dos ex-presidentes e em que não faltou emoção. Os sete especialistas buscarão, segundo o script oficial, “esclarecer os fatos e as circunstâncias dos casos de graves violações de direitos humanos” e “promover o esclarecimento circunstanciado dos casos de torturas, mortes, desaparecimentos forçados, ocultação de cadáveres e sua autoria, ainda que ocorridos no exterior”. Para evitar conotações de revanchismo, ampliou-se o período de apuração para algo muito além do regime militar, abarcando fatos de 1946 a 1988. Mais uma iniciativa que fortalece o Estado e a sociedade, jogando luz sobre período sombrio de nossa história.